Seu navegador não suporta java script, alguns recursos estarão limitados. “O conhecimento vem das rupturas”
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Doutora em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Fernanda De Negri estuda as dificuldades que emperram o desenvolvimento científico e tecnológico do país. Em seu livro mais recente, Novos caminhos para a inovação no Brasil, lançado em junho e disponível para dowload gratuito aqui, expõe uma análise contundente sobre o setor e delineia soluções para os problemas diagnosticados. Com uma sólida experiência no setor acadêmico e na esfera pública — foi pesquisadora visitante no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e no Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) — , Fernanda fala com isenção e sem rodeios sobre os problemas que entravam a geração de conhecimento nas empresas, nas universidades e entre os pesquisadores. E apresenta iniciativas que podem tornar ambiente de inovação brasileiro mais arrojado. Confira abaixo, dez propostas apresentadas por Fernanda em entrevista feita após o lançamento do livro na sede da Finep, no Rio.

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A pesquisadora Fernanda De Negri analisa em novo livro as fragilidades na produção científica e tecnológica brasileira

Competição é crucial geração de conhecimento

“O Brasil investe — somando gastos públicos e empresariais — 1,27% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em P&D, mas as empresas respondem por pouco menos da metade desses investimentos. Nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), por exemplo, quase 70% do investimento total em P&D vêm da iniciativa privada. Acho que avançamos bastante nos últimos anos ao criar incentivos, como os fiscais (com a Lei do Bem, por exemplo) e a oferta de crédito subsidiado, mas, além disso, precisamos aumentar a concorrência no mercado doméstico. A competição é um dos grandes motores da inovação. Em segundo lugar, temos que melhorar o ambiente de negócios no Brasil, tornando-o menos burocrático, mais dinâmico e flexível, para que as empresas conseguiam inovar de maneira bem-sucedida”.

Ser uma potência de commodities não basta

“Estamos perdendo capacidade empresarial e deixando de produzir bens com maior valor agregado e intensidade tecnológica. As exportações intensivas em tecnologia eram cerca de 9% do total das exportações brasileiras em 2000 e passaram a representar apenas 3% em 2014.Com isso, perde-se capacidade de gerar renda em dólar, já que os preços das exportações atuais, commoditizadas (como soja e produtos agropecuários), oscilam mais no comércio internacional e deixam o país vulnerável. Quando deixamos de produzir e produtos intensivos em tecnologia, significa que empresas brasileiras estão parando de desenvolver determinada linha de produtos, estão falindo ou fechando. Com isso, o país perde competência”.

É preciso resgatar e reforçar o ensino da matemática e ciências

“Um estudo realizado em 2015 pelo Círculo da Matemática aponta que 75% dos adultos brasileiros não sabem fazer uma média simples e 60% declararam não gostar de matemática na escola. Isso tudo, apesar de termos experimentado um avanço significativo em termos de acesso à educação no Brasil. Temos que apostar agora na melhoria da qualidade do nosso ensino, em todos os níveis e reforçar o currículo nas escolas em matemática e ciências. Este é um caminho que vem sendo adotado por vários países. A Alemanha, por exemplo, aumentou a carga horária dessas disciplinas e outros governos oferecem mais bolsas de estudo na graduação para alunos que escolhem cursos nas áreas de exatas e tecnológicas. Ou seja, há uma série de programas ao redor do mundo para fortalecer a formação do que chamam de STEM (science, technology, engineering and math). É um caminho que o Brasil poderia seguir, desde o ensino básico”.

O mercado precisa estar preparado para receber a mão de obra qualificada

“Nós formamos, todos os anos, aproximadamente 50 000 engenheiros, o que significa aproximadamente 6% do total de quase 900 000 graduados no ensino superior. Isso representa cerca de 2,8 novos engenheiros por ano para cada 10 000habitantes, número muito abaixo de países como Coréia do Sul (19 engenheiros por 10 000 hab.); Espanha (10) e México (8). O problema é que mesmo que se tal número fosse ampliado, o mercado de trabalho hoje não teria nem mesmo como absorver essa mão de obra altamente qualificada. Precisamos trabalhar nas duas frentes: aumentar a oferta de engenheiros, cientistas e pesquisadores, formando mais pessoas; e, ao mesmo tempo, agir do lado da demanda, tentando melhorar o ambiente para que as empresas inovem e, aí sim, demandem e contratem esses profissionais. Um cientista brasileiro que esteja voltando de um doutorado no exterior tem que ter outra opção de trabalho que não seja apenas dar aula numa universidade pública. É necessário para que sejam criadas outras alternativas de emprego para eles, para que seja criado um sistema de inovação mais diversificado.

As empresas devem competir pela excelência em inovação e não pela eficácia em interpretar as leis ou fazer lobby

“Precisamos de mais engenheiros e menos advogados. As empresas precisam competir no mercado pelas suas competências de engenharia e tecnologia, e não pelas habilidades em interpretar e tirar melhor proveito de uma legislação complexa em seu benefício, como ocorre hoje em dia. Possivelmente, as empresas têm muito mais advogados do que engenheiros e cientistas. Se as leis são complexas, se o ambiente requer expertise para pagar impostos e se há uma série de obstáculos para produzir bens, serviços e inovar, por que eu vou contratar um engenheiro? É mais interessante para as empresas investir em advogados que as guiem pelo emaranhado jurídico brasileiro, ou até mesmo um lobista para fazer pressão por política pública que favoreça meu setor ou grupo. É um transição lenta, mas precisamos mudar esse cenário. Só ocorrerá no longo prazo. O fato é: hoje uma empresa brasileira precisa menos inovar do que ter advogados bons que lhe digam como pagar impostos e obter incentivos fiscais”.

A criação de oportunidades é a melhor forma de combater a fuga de talentos

“Alguns especialistas em políticas científicas avaliam que a chamada fuga de cérebros (brain drain) deixou de ser um problema para se tornar uma fonte de oportunidades. Por esse ponto de vista não se está mais em questão a fuga ou ganho de cérebros (brain drain versus brain gain), mas, sim, em circulação de cérebros (brain circulation). Isso pode ser um benefício se conseguirmos aproveitar no futuro essas pessoas que estão indo para fora. O problema é estamos perdendo pessoal porque não há alternativa de trabalho. O que me incomoda nessa discussão é que aqueles que veem a fuga de cérebro como um problema defendem legislações para proibir os pesquisadores de ficarem no exterior e serem obrigados a voltar ao término do doutorado, por exemplo. Mas não dão oportunidade a essa pessoa, ela não tem o que fazer quando volta ao Brasil. A forma de solucionar o ‘problema’ da fuga de cérebros é criar condições para atrair cérebros para o Brasil, sejam brasileiros ou estrangeiros, porque cérebro bom não tem nacionalidade. Por isso, a abordagem do brain circulation é muito mais interessante. Temos excelentes cientistas brasileiros atuando na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia, mas temos poucos pesquisadores estrangeiros de ponta no Brasil. Não podemos limitar a saída de brasileiros nem obrigá-los a retornar: devemos atrair qualquer pesquisador de alto nível, dando condições para que queiram vir para cá trabalhar. Hoje, elas são restritas”.

A inovação acadêmica exige rupturas com hábitos e conceitos já arraigados

“A universidade brasileira parece sofrer de uma espécie de endogamia — ou eugenia — acadêmica. Nessa situação, tende apenas a contratar a valorizar o pensamento dominante em suas produções e contratar os próprios ex-alunos como professores e pesquisadores. Pelo que vi em minhas visitas a instituições europeias e norte-americanas, o fenômeno parece ser mais recorrente por aqui, porém não temos ainda estudos que, de fato, comprovem isso. Mas o importante é que por meio desse movimento, se reduz a diversidade, tão importante na produção científica. Uma pessoa que teve uma formação diferente da sua — numa área, instituição ou país diferente — provavelmente traz consigo outras metodologias de trabalho, perguntas e abordagens. Pesquisadores que permanecem ligados a suas instituições de origem tendem a reproduzir os métodos e formas de análise dos seus professores, criando-se um ciclo de repetição em campos onde os avanços vêm a partir de rupturas. Quando se está num ambiente confortável, onde todas as pessoas pensam como você e fazem perguntas parecidas, caminha-se em círculos. O que pesquisadores de fora fazem é romper com esse circuito e abrir novas perspectivas de análise. Há uma vasta literatura na área que mostra como a homogeneidade e a falta de dinamismo são ruins para a ciência. Um bom cientista tem que romper, em algum momento da vida, com seu orientador, com sua escola — uma coisa meio freudiana. No Brasil, há ainda uma questão de lealdade dos pesquisadores às instituições em que se formaram: os vínculos entre alunos e orientadores chegam a ser muitas vezes mais fortes até do que a própria lealdade à produção científica. Isso é muito ruim. Eles não questionam seus mestres.”.

As empresas precisam assumir seu papel na inovação

“É preciso aumentar a pressão sobre as empresas brasileiras e a necessidade de elas inovar, o que tem a ver com competição e concorrência. Hoje elas não se sentem compelidas a inovar. Trabalham basicamente para o mercado doméstico, que está protegido por tarifas de importação relativamente elevadas. É um mercado que, por essa razão, acaba sendo menos sofisticado do que o internacional, no qual os produtos novos chegam mais rapidamente. Nos Estados Unidos, por exemplo, eu posso comprar na Amazon um pacote de teste de DNA para descobrir se tenho maior ou menos risco de desenvolver câncer de mama. Isso custa pouco mais de 100 dólares e chega à minha casa pelo correio. Esse tipo de produto não existe no Brasil. Além de aumentar a pressão necessidade de inovarem, também é preciso melhorar as condições para as nossas empresas inovarem. Elas precisam sentir vontade de ir atrás do conhecimento que está nas universidades. Há gargalos nas universidades brasileiras para que elas façam parcerias com empresas, sim, mas o principal gargalo está na baixa demanda desse conhecimento pelas empresas. Portanto, nosso setor empresarial continua sobrevivendo com baixa produtividade e apresentando produtos de menor qualidade”.

As políticas públicas devem reforçar o desenvolvimento de recursos humanos e não apenas instalação de infraestrutura

“O estado tem um papel crucial e crítico na inovação, porque ela gera uma série de benefícios não só para a empresa inovadora, mas para toda a sociedade. Isso, por si, já justifica uma atuação estatal forte no setor. Mas precisamos aprimorar e melhorar essa atuação no país. As políticas públicas têm que ser reformuladas, deve haver mais preocupação com a formação de recursos humanos, construção de infraestrutura adequada e melhoria do ambiente. O estado brasileiro precisa agir de forma mais inteligente. Demos os primeiros passos ao criar incentivos fiscais, crédito, subsídios para a inovação, compartilhar o risco da inovação com as empresas, mas é preciso ir além resolvendo questões tributárias e de regulação, por exemplo”.

Uma política eficaz passa pelo diagnóstico preciso das deficiências

“Estamos ainda muito longe de figurar entre os campeões da inovação, mas podemos melhorar bastante. O lado bom e o lado ruim para o Brasil é que há muito a ser feito — coisas fáceis e difíceis. Já que temos tantos desafios, podemos começar pelos fáceis. Mas, ainda assim, há um longo caminho a ser percorrido. Não precisamos pensar em estar no topo do ranking dos países mais inovadores: temos que pensar em ser um país mais inovador e dinâmico, e trabalhar para que isso se traduza em melhores condições de vida para todos, em redução de desigualdades. O primeiro passo é termos um diagnóstico mais claro do problema e sabermos onde exatamente estamos. Algo que o livro tentar evidenciar: temos lacunas explícitas e não caminhamos o suficiente para tentar preenchê-las. Precisamos avançar”.

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