Soberania alimentar é questão estratégica para o Brasil conduzir globalmente

Tema foi discutido por pesquisadores e lideranças de movimentos sociais em seminário da Finep

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04/11/26 09:12
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O Brasil tem simultaneamente uma oportunidade e uma emergência: revisar seu modelo de desenvolvimento com a implementação de políticas públicas voltadas ao enfrentamento da crise climática e à garantia da soberania alimentar. O tema foi debatido por cientistas e lideranças de movimentos sociais no seminário Segurança, Soberania Alimentar e Mudanças Climáticas, promovido pela Finep, nesta terça-feira, 4/11, no Rio de Janeiro.

Foi o quinto evento de um ciclo que vem sendo realizado pela agência estatal desde o fim de 2025 com o objetivo de integrar instituições na busca de soluções coletivas para a questão climática. “Hoje tratamos de algo elementar. Há oitenta anos, Josué de Castro publicou Geografia da Fome e mostrou que a fome no Brasil não era obra da natureza, mas resultado de escolhas sociais e políticas”, lembrou o presidente da Finep, Luiz Antônio Elias, na abertura do evento, quando convocou os presentes à participação social para uma mudança nos rumos do desenvolvimento nacional. “A soberania alimentar é a capacidade de o país e seus territórios decidirem o que produzir, como produzir e para quem”, argumentou, acrescentando que a ciência e o fomento têm papel relevante na implementação de políticas de proteção social.

Em seguida, a secretária de Abastecimento, Ana Terra Reis, do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, corroborou a defesa da participação social e da cooperação institucional e comentou da parceria entre o Ministério e a Finep. “Avançamos na pauta da mecanização agrícola, pensando na agricultura familiar, inclusive, para diminuir a penosidade do trabalho. Discutimos o Coopera Mais e estamos com dois editais abertos, fortalecendo iniciativas com cooperativas da agricultura familiar, que têm sido responsáveis por grande parte da produção de alimentos. E, agora, eu destaco a importância desse seminário no sentido de apontar caminhos e ajudar a construir políticas públicas que sejam estruturantes e que sejam transformadoras”, disse.

A abertura do evento contou ainda com a apresentação da secretária executiva do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, Raimunda Monteiro, além das representantes da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Nader, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Andréa Latgé.

Para o coordenador do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ), Renato Maluf, palestrante no evento, o Brasil teve um “processo rico e diferenciado na construção de referências em segurança e soberania alimentar e direitos à alimentação” e, agora, diante de uma crise da governança global dos sistemas alimentares, o país pode e deve contribuir e influenciar em um novo modelo de produção agrícola. “O tema da soberania alimentar voltou à pauta internacional. Acordos multilaterais perderam relevância porque muitos países caminharam na direção de resolver o aprovisionamento alimentar com acordos bilaterais. Há um redesenho de hegemonias”, destacou.

Na terceira etapa do seminário, uma mesa redonda reuniu os pesquisadores Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), Julia Senra, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Cristhiane Amancio, da Embrapa, Renata Menezes, do MST, Jaqueline dos Santos, da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) e Dirceu Reis, da Universidade de Brasília (UnB). Eles foram unânimes em apontar a emergência de uma mudança no modelo de produção de alimentos no Brasil – chamado de “agroexplorador” por Julia Senra.

A concentração fundiária e a insegurança hídrica foram outros pontos enfatizados. “Para cada quilo de carne exportado, o Brasil perde centenas de litros de água”, alertou Artaxo, ressaltando que o Brasil terá que rever o modelo de desenvolvimento já em meio a restrições hídricas.

O conteúdo dos debates ocorridos nos seminários sobre Mudanças Climáticas será consolidado em um livro, com recomendações e propostas para políticas públicas, a ser lançado em dezembro e entregue à Presidência da República. “Será uma contribuição da comunidade científica ao país”, disse Luiz Antônio Elias, anunciando também a realização do próximo seminário do ciclo em 16 de dezembro.

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