
Foto: Lucas Landau
Em um balanço das discussões sobre mudanças climáticas no contexto da COP30, o presidente da Finep, Luiz Antônio Elias, considera que o Brasil está “no centro do debate estratégico sobre o futuro climático, econômico e geopolítico do planeta”. A fala ocorreu durante um seminário realizado nesta terça-feira (27/01), na sede da Agência, no Rio de Janeiro, em parceria com a plataforma The Conversation.
Especialistas em mudanças climáticas e preservação ambiental discutiram os desafios na redução dos impactos pelas alterações do clima com a manutenção do crescimento econômico. De acordo com o presidente, “o verdadeiro teste da COP30 começa agora: no que o Brasil fará nos dias, meses e anos seguintes; no modo como traduziremos compromissos internacionais em políticas públicas concretas, sustentadas por ciência, inovação, capacidade estatal e soberania nacional”.
Luiz Antônio Elias também ressaltou que “não há política climática consistente sem ciência forte, financiamento estável e capacidade institucional; tampouco há transição ecológica justa sem inovação tecnológica orientada pelo interesse nacional”.
No painel “Terra”, mediado por Ima Vieira, assessora da Finep e especialista do Museu Paraense Emílio Goeldi, a presidente do conselho científico da COP30, Thelma Krug, salientou que “o multilateralismo foi reforçado na conferência internacional, apesar do enfraquecimento das instituições que vemos de uma maneira global”. Pediu por mais políticas de Estado e menos políticas
de governo a respeito da questão ambiental, para que elas perdurem. A professora apontou que “normalmente o volume de chuvas anual é o mesmo, mas a forma como isso vai acontecer é o que gera preocupação, com os eventos extremos, de seca e chuva”.
Segundo o geólogo e professor Pedro Walfir, da Universidade Federal do Pará, a COP30 trouxe uma reflexão muito importante de que ainda existe uma parcela da sociedade que não precisa de tantos bens de consumo para evoluir e se desenvolver. Ele acredita que as mudanças climáticas serão intensas, inclusive para os que não emitem carbono (carbono neutro). “O grande paradigma da COP30 “é que é possível ter um modelo de desenvolvimento diferente do que temos hoje”, afirmou.
O impacto das mudanças do clima na sociedade ocorre de modo desigual, na visão de Marcos Barreto de Mendonça, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do projeto Encosta Viva. “Sobre os deslizamentos de terra, os riscos devem ser considerados como perigos e possuem três componentes: o hazard (probabilidade de o evento adverso acontecer), combinado com os elementos expostos naquela ameaça e principalmente a vulnerabilidade destes elementos expostos. Ou seja, é a condição social daqueles elementos expostos que determinará os impactos, caso aquela ameaça se concretize”. Para ele, muitos dos riscos podem permanecer invisíveis. “Então, a ciência tem um grande papel para torná-los visíveis, contribuindo na prevenção”, disse.
Já Ana Luiza Coelho Neto, do Instituto de Geociências da UFRJ, demonstrou que os incêndios florestais e as chuvas estão cada vez mais frequentes e em intervalos menores. “Em 1859, relatos apontam que as chuvas iam de agosto até maio, com apenas 15 dias de veranico, um período mais seco. Hoje, este intervalo sem chuvas dura entre 8 e 9 meses por ano”. Ela apresentou estatísticas a respeito dos incêndios florestais, que são mais frequentes na estiagem, mas que eles estão aumentando ano após ano. “O que está atrás disso tudo são transformações que potencializam os deslizamentos nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, como temos visto no noticiário”, apontou.
Novas fronteiras do negacionismo
Mediado por Luciana Julião, da plataforma The Conversation Brasil e da Universidade Federal de Minas Gerais, o painel “Água” trouxe o destaque de Letícia Cotrim, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, para a relação entre o aumento do nível do mar, a expansão térmica do oceano e o derretimento das geleiras, acarretando perdas econômicas, de território, na habitação e a salinização da água doce. Ela observa que “a nova fronteira do negacionismo é dizer que não há mais tempo para fazer nada. Mas existem soluções e tecnologias. Se nós conseguimos mandar um satélite para Marte, que de lá nos envia fotos coloridas do planeta, temos a capacidade de encontrar uma solução que abrangendo quem é mais vulnerável, em que os Estados mantenham políticas de bem-estar social”. Letícia se recusa a falar de fim de mundo, pois “esse discurso serve para quem quer continuar queimando óleo como se não houvesse amanhã”.
A bióloga, professora e pesquisadora Mariana Bender, da Universidade Federal de Santa Maria, ressaltou que os recifes e outros sistemas marinhos precisam ser prioridades. “Há colônias de corais branqueadas no litoral do nordeste brasileiro em virtude das altas temperaturas. O estresse pelo calor expulsa as algas, gerando esse processo de branqueamento por causa das ondas de calor cada vez mais frequentes, intensas e duradouras, alterando por mais tempo a temperatura dos oceanos e sem dar um intervalo para a recuperação desses animais”. Ela defende a mobilização de larga escala
no financiamento para acelerar a restauração dos recifes degradados, ampliar a proteção efetiva dos mesmos e fortalecendo as áreas marinhas protegidas, além de reduzir a poluição costeira”.
“Amazônia não é só floresta. É água, muita água. E mar. Ela também tem gente. Apesar de termos baixa densidade demográfica, 20 milhões de pessoas vivem na Amazônia Legal. Precisamos entendê-la como uma região geográfica, com cidades, pessoas e comunidades. Não é só floresta”, disse o oceanólogo e pesquisador Nils Edvin Asp Neto, da Universidade Federal do Pará. Segundo ele, “o oceano possui um grande papel de regulador do clima, mas atualmente está perdendo esta capacidade. Nils enfatiza que “é preciso combater o argumento de políticos de que as questões ambientais travam o desenvolvimento. Ainda mais agora, que saímos de uma fase do negacionismo em relação às mudanças climáticas e entramos num momento de conformismo, aceitação, sem dimensionar o impacto que essas mudanças causarão”.
O engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Wenceslau Teixeira discursou a respeito das secas e alagamentos. Ele apontou que os prejuízos para a agricultura brasileira geraram perdas de R$ 300 bilhões (principalmente no nordeste e sul do Brasil), entre 2013 e 2022. Segundo o professor, “eventos intensos mais frequentes elevam o risco de alagamentos e deslizamentos, erosão do solo e prejudicam a produção agrícola”. Ele exemplificou tais eventos extremos, como a bacia do Rio Negro, no Amazonas, que teve a maior cheia em 120 anos, em 2021 e a maior vazante também em 120 anos, em 2023. Já na região sul, “em 2023 o Rio Grande do Sul teve o terceiro ano seguido de secas, causando perdas monumentais na agricultura. Já em 2024 ocorreu a grande enchente em Porto Alegre e região metropolitana, quando choveu 800 milímetros em três dias”.
A gravação do seminário “O Brasil Pós-COP 30” está disponível no canal do Youtube da Finep e marcou o encerramento do projeto “De Olho na COP 30”, que em mais de um ano acompanhou as impressões e expectativas da comunidade científica sobre a conferência realizada em Belém.
Fotos do evento disponíveis aqui.






